Secretário da Agricultura imagina o semiárido baiano do futuro com sustentabilidade

Secretário da Agricultura imagina o semiárido baiano do futuro com sustentabilidade

O semiárido baiano do futuro, no olhar do secretário estadual da Agricultura (Seagri), engenheiro agrônomo Eduardo Salles, também presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Agricultura (Conseagri), deverá trazer em si o conceito da sustentabilidade. Levando em conta que o fenômeno natural da seca poderá se agravar nas próximas décadas - segundo avaliação de institutos de pesquisas -, o gestor da Seagri afirma que as políticas públicas precisam atuar na implantação de ações que proporcionem, especialmente, aos 665 mil agricultores familiares baianos a convivência com a terra. É com essa perspectiva, ressalta, que o governo estadual está trabalhando. Nesta entrevista, publicada nesta quinta-feira (31)m no Caderno Especial Semiárido do Futuro, pelo jornal A Tarde, Salles destaca as iniciativas que vêm sendo realizadas (assistência técnica, crédito especial, Seguro Garantia Safra, cultivo da palma forrageira e construção de barreiros, cisternas de produção, barragens subterrâneas e poços artesianos, entre outras), dentro dos compromissos e desafios do Plano Safra Bahia 2013/2014, elaborado pelo governo do Estado da Bahia, com o principal objetivo de recuperar a agropecuária baiana.

Como o senhor imagina a região do Semiárido baiano do futuro?

Eduardo Salles - Com sustentabilidade. Pelo que os institutos de pesquisa sinalizam, as próximas décadas serão muito difíceis para essa região em função do agravamento das secas e dos recursos hídricos que estão se exaurindo. Desta forma, se realmente a convivência plena com a seca não for encarada pelos governos, ao longo desse tempo, a tendência será a de um êxodo rural de grandes proporções. Imagino a região semiárida comparavelmente aos países nórdicos, que têm todos os anos, durante seis meses, seus solos cobertos de neve e, nem por isso, seus rebanhos são dizimados. Podemos, sim, nos preparar com reserva alimentar e reserva de água para esse convívio com a seca. E isso já é realidade em locais do nosso Semiárido.

Quais os desafios da agropecuária no Estado e como a seca e seus efeitos vêm sendo enfrentados, no Semiárido baiano? Quais as principais ações do governo, nesse sentido?

ES - Os desafios são muitos devido à grandiosidade e à diversidade do nosso Estado, no tocante ao setor agropecuário. São 56 milhões de hectares com três biomas diferentes e a Bahia está sempre entre as cinco primeiras colocadas no ranking de produção do maior número de produtos agropecuários. Em relação à seca, temos trabalhado com dois pilares básicos. Primeiramente, criar as melhores condições para que o produtor tenha água para a dessedentação animal e, nesse item, cada realidade é uma realidade, dando as soluções que são diferenciadas: construção de barreiros, cisternas de produção, barragens subterrâneas, poços artesianos (mesmo com água salobra), perenização de rios e riachos, através de pequenos barramentos, entre outras. O segundo pilar é a reserva alimentar e, para isso, a solução principal tem sido o cultivo da palma forrageira (tipo de cacto). Temos distribuído, diretamente aos produtores, milhares de mudas e plantado unidades de multiplicação (UTDs) em todos os municípios do Semiárido e nas estações experimentais da EBDA (Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola) e, por ultimo, estamos construindo uma grande biofábrica para a produção de um milhão de mudas por mês para a distribuição aos produtores.

Como não se pode combater a seca, a busca de alternativas para conviver com ela tem sido o compromisso do governo. Como os agricultores vêm se comportando em relação a essa nova compreensão sobre a seca?

ES - Eles, na verdade, na sua grande maioria, dependem das ações governamentais e, quando as ações de convivência são implantadas nas suas comunidades rurais, existe, sim, claramente, um compromisso participativo deles.

Que ações o Estado está implantando no sentido de valorizar o agricultor familiar? E, nesse sentido, quanto o governo investe, anualmente, no setor? 

ES - Muitas ações: a assistência técnica que era prestada pela EBDA alcançava apenas 80 mil agricultores familiares dos 665 mil que existem na Bahia. Nesta safra, queremos alcançar a marca dos 350 mil assistidos. O Seguro Garantia Safra que, como um seguro de carro, garante uma renda mínima ao produtor no caso de perda da safra por seca, tinha somente seis mil segurados por ano e, agora, serão 300 mil nesta safra. O governo da Bahia é o único no país que paga metade do que caberia ao produtor e à prefeitura. O número de DAPs (Declaração de Aptidão ao Pronaf), que é como se fosse a carteira de identidade do agricultor familiar e que lhe dá acesso a todas as políticas públicas disponíveis, era de somente 80 mil no Estado e, hoje, são 570 mil unidades. Atualmente, o Estado tem uma política de doação de sementes para 150 mil famílias. Enfim, são muitas ações porque o governador sinaliza a agricultura familiar como uma prioridade do Estado.

Especificamente, sobre o Plano Safra, qual o plano de ação para 2014?

ES - A recuperação da agropecuária baiana, principalmente, pois estes três anos de seca causaram prejuízos ainda incalculáveis e, sem dúvida, demoraremos décadas para recuperar alguns setores, como o de leite, por exemplo.

 

Em relação aos setores de ovinocaprinocultura e de criação de peixes, o governo tem planos específicos?

ES - A ovinocaprinocultura e a piscicultura serão sempre alternativas das melhores para a convivência com a seca e, por isso, estamos estruturando estes setores de forma definitiva. Criamos um programa chamado Pré-berro no qual, com o apoio dos agentes financeiros BNB e BB, são financiados, a juros subsidiados, animais para o melhoramento genético de ovinos e caprinos. Neste momento, estamos selecionando produtores para receber, como doação do Estado, 40 mil ovinos e caprinos com aptidão para corte e/ou leite, visando à recomposição de rebanhos em função da seca. Cada criador selecionado receberá cinco fêmeas e, 18 meses depois, entregará ao seu vizinho cinco filhas desses seus animais. Também, cada grupo de dez famílias receberá um macho PO (Puro de Origem) para cruzamento coma as fêmeas. Essa é uma das muitas ações que estão sendo planejadas para este setor, como os projetos de terminações de ovinos de corte e a produção de queijos especiais. Em relação à piscicultura, a Bahia Pesca tem feito um importante trabalho de produção de alevinos (filhotes de peixes) para a doação a milhares de produtores. Há poucos anos, o Estado produzia e doava 15 milhões de alevinos por ano, mas queremos fechar 2013 com 60 milhões de alevinos doados. Temos outros projetos sendo desenvolvidos em todo o Semiárido, a exemplo dos tanques escavados e dos tanques-rede para a produção de peixes, entre muitos outros.

O que está sendo planejado em relação à produção de feno (mistura de plantas ceifadas e secas, geralmente gramíneas e leguminosas, usada como forragem para o gado), no município baiano de Ponto Novo?

ES - Este será um projeto muito importante para o desenvolvimento tanto da ovinocaprinocultura de corte como a de leite na região. As associações de criadores vão produzir feno irrigado para a venda subsidiada aos produtores associados de toda a região de Senhor do Bonfim, resolvendo um dos problemas mais complicados que é a manutenção dos animais nos períodos de seca.

A barragem de Ponto Novo, por sua vez, é de extrema importância para a produção agrícola e para o abastecimento humano. É possível ampliar os investimentos para o aumento da sua capacidade? Existem ações com esse propósito?

ES - A barragem de Ponto Novo é fundamental para a geração de milhares de postos de trabalho, em uma região que precisa muito desses empregos. A fruticultura irrigada é a base de sustentabilidade de toda essa região. A barragem de Ponto Novo tem papel estratégico nesse processo. A ampliação da capacidade de armazenamento da barragem já está sendo estudada pela CERB (Companhia de Engenharia Ambiental e de Recursos Hídricos da Bahia), que contratou uma empresa que comercializa no Brasil um equipamento chamado Fusegate, que é colocado no vertedouro do barramento e pode ampliar em até 25% a sua capacidade de armazenamento. Já existe o compromisso do secretário estadual de Meio Ambiente, Eugênio Spengler, de instalar esse equipamento na barragem de Ponto Novo tão logo os estudos definirem esta possibilidade.

Secretário, fale um pouco sobre a construção das barragens subterrâneas. Qual a sua importância para a agricultura do Estado?

ES - Olha, essa tecnologia, desenvolvida pela Embrapa Semiárido, sem dúvida, é uma opção das mais viáveis para o Nordeste brasileiro e é uma construção bem simples. Em uma baixada, por exemplo, faz-se uma valeta com quatro metros de profundidade e 100 metros de comprimento, coloca-se uma lona nessa valeta e faz-se um vertedouro, fechando a valeta. Quando vierem as chuvas, as águas se acumularão no subsolo e dali o agricultor pode cultivar e ter água para o consumo nos meses de seca. Claro que citei um exemplo básico, mas tudo isto depende de um estudo do perfil do solo e das condições locais para a determinação do ponto correto e da possibilidade de instalação. Conseguimos R$ 26 milhões de reais do BNDES e do Ministério da Integração para o Estado da Bahia e já licitamos, via CAR/Sedir (Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional/Secretaria de Desenvolvimento e Integração Regional), aproximadamente, 100 retroescavadeiras para serem doadas a municípios, juntamente com os demais itens necessários para construirmos milhares de barragens subterrâneas no nosso Semiárido.

Secretário, além da palma, o milho é fundamental para a alimentação animal. Como essa questão está sendo tratada?

ES - É verdade. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) só possui cinco armazéns na Bahia, nos municípios de Entre Rios, Ribeira do Pombal, Santa Maria, Itaberaba e Irecê e, apesar do esforço e empenho da superintendente da companhia na Bahia, Rose Pondé, não conseguíamos atender a demanda. Assim, para fazer com que o milho chegasse rapidamente ao criador, em um esforço conjunto do Governo do Estado, através da Secretaria da Agricultura e da Casa Civil, da Conab e das prefeituras, conseguimos ampliar os polos de distribuição de cinco para 27, alcançando toda região do Semiárido.

Dessa forma, tem sido possível manter o programa de vendas em balcão, fazendo o milho subsidiado chegar ao criador ao preço de R$ 18,10 a saca de 60 quilos, que no mercado custa até R$ 50 reais. Vamos fechar o ano tendo vendido cerca de 150 milhões de quilos de milho subsidiado.

Com as novas perspectivas para o Semiárido, é possível atrair investimentos privados para essa região? 

Sem dúvidas. O Semiárido é o melhor lugar do mundo para se produzir frutas, ovinos e caprinos e a pecuária como um todo, e isto implica em agroindústrias que vêm agregar valor e gerar empregos neste nosso maravilhoso Semiárido. Temos feito este dever de casa e já são 28 protocolos de investimento no setor agropecuário assinados, em construção ou já inaugurados, e boa parte deles no Semiárido.

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